Papel & Ofício
   Haikai I

Não mais a Guerra
Cansei de ser soldado.
Vou ser Estátua.

Escrito por Henrique às 19h31
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   Rosa

Rosa... Rosa da roça,

Rosa do mato,

Na roça, Rosa sempre teve casa que fosse sua,

mas na cidade Rosa disse-me um dia:

Aqui eu tô comprando a casa que nunca vai ser minha!

Rosa do mato que tem verdura, fartura, disse-me outro dia:

 Lá o leite é bom não é ralo como o daqui...

Disseram para eu trazer minha vaquinha...

E você Rosa?

Se pudesse trazia, dormia no pé da minha cama...

Rosa! Gosta mais de bicho que de gente?

Não meu filho, gosto do mesmo tanto...

é que criação, a gente panha amor!

Não confessou, mas continuou a falar de vaca, já de gente....



Escrito por John às 14h01
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   Relógio

Incansável
repete-se
o relógio.
sem sentir
do tempo
o pedágio.
Sem saber
saudades
e preságios.
Aponta para
as mesmas
horas.

Ignora
que uma única vez
Heráclito
e o Rio
se encontraram.

Adágio
e aresta
do tempo.




Escrito por Henrique às 11h11
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   Babel

As máquinas falam
a língua dos homens.
Os homens, a língua dos anjos.
Todos falam,
Ninguém há que escute.

O cupido brinca de esconde-esconde
num descuidado jardim que já foi Eden.

Allan, guarde uma maçã para mim.

Escrito por Henrique às 07h21
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 Madona Negra

 

Às vezes uma dama negra,

Nos diz que tudo é vago,

Extremamente vago...

E na manhã quando o sol arrisca alguns raios,

A cidade acorda devagar,

E se vê que os velhos correm,

Enquanto os jovens vivem...

Sempre passa pela rua alguém

Sempre passa alguém por mim,

E eu penso...

Deus, como somos sozinhos,

As pessoas passam por mim....

E eu, fantasma...

Não as reconheço....

A singularidade é justamente ser desconhecido

Me olho no espelho por alguns minutos,

O homem que me olha não sou eu,

Sei lá porque, eu olho o meu olho,

Mas ele não me olha...

Ou não me vê

Sinto que minha mão é fria...



Escrito por John às 12h34
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Continuação da poesia anterior

Sinto que minha mão é fria...

E os homens que passavam pela rua

Não me disseram oi... nenhum deles,

Como é vã a esperança...

E a visibilidade é ficção.

E os meus olhos Deus?

 Porque não me olham...?

Sou singular em mim mesmo!

Eis que toca o sino,

Que soa a buzina,

Que há o barulho de motor,

E o dos tambores desritmados,

E dos ônibus e carros,

Das pessoas que falam sem parar,

Quanto barulho se pode ouvir no mundo?

E mesmo assim eles não simbolizam nada...

E por pensar que o som que se propaga não simboliza,

Que a luz que vejo é escuridão,

E que meus olhos me ignoram,

É que sinto uma leveza como se pudesse estar pendurado apenas por um fino fio,

A morte?

Solução de inutilidades...

- A alma é realmente leve!

  

 



Escrito por John às 12h34
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Outra Fome



Minha fome tem


Fome de mim.



Minha fome me consome


Eu não a sustento,


Nem mesmo ela se sustenta,


Ambos somos insustentáveis.



Minha fome, é a fome da ansiedade


Que não passa, que sobrevive a sombra,


Minha fome tem fome de


Ansiolíticos, anfetaminas e antipsicóticos.



Minha fome come meus dedos


E me desgasta.



Minha fome,


Ainda


Tem fome de mim!




Escrito por John às 21h02
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   Fome

Minha fome
tem fome de si.

Minha fome
a si mesma
se consome.
De si mesma
se alimenta.
A si mesma
se sustenta.

Só faz crescer
minha fome
jamais saciada
de si mesma.
Jamais de si mesma
satisfeita.

...por fim
há de devorar-me.
E seremos um:
minha fome
e eu.

Minha fome
tem fome de mim.

Escrito por Henrique às 20h45
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   Carmen

Ave de mau-agouro.
Vai-te. E já vais tarde.
Faz teu ninho
em outro peito.

Filho da boemia
faz tua mala e parte.
Vá e não voltes cedo.

Melhor: não voltes.

Meu coração anseia,
necessita e merece
dois ou três dedos de paz.

Escrito por Henrique às 15h50
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   Noite Branca

Foi uma noite produtiva.
Tomei um poema
e algumas resoluções.

John e Henrique

Escrito por Henrique às 19h15
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   Solidão


Debruço-me sobre
o parapeito da janela,
sobre a cidade,
sobre mim mesmo.
(O mundo, talvez, exista apenas
Para que eu o veja.

Contemplo a paisagem
de faces desconhecidas,
de rostos uniformes
uniformemente (des)iguais.
(Variações infinitas
de um mesmo tema:
o rosto alheio, o que não vemos
nem no espelho nem em nossas lembranças).

Procuro por um rosto
Que não está lá.

Procuro a cura
que, talvez, não haja
para um mal que,
suspeito, não exista.
Atrás de mim, um espelho me duplica
(somos duas solidões...)

(Mas sinto que mais acima,
outro rosto me contempla
e talvez, o mundo e eu,
existamos apenas para seus olhos
ubíquos).


Escrito por Henrique às 10h34
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   Insônia



Os Fantasmas estão aí...


Uma angústia estranha enche o meu peito vazio,


Quanto tempo se desperdiça nesse mundo?


Se é nas noites vazias, cheias de Fantasmas,


Que se produz o quadro mais bonito...


Hoje Jupter trocou Ganimedes por medonhos Magos Negros,


Eles passeiam sorrateiramente pela casa,


Não os vejo, mas posso sentir o peso do ar,


Eles sussuram ao pé da minha orelha,


O sol me apresenta alguns raios tímidos,


É tarde....


Os Fantasmas já fizeram o trabalho!



Escrito por John às 05h50
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   Diálogo Hipotético entre a Sombra de Borges e seu reflexo no Espelho

- Para mim, o único pecado é a indiferença.
- E isso, o que me importa?

Escrito por Henrique às 21h08
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   Não me pergunte de onde eu vim,
Não me pergunte como eu vim parar aqui,
Não me pergunte sobre as pessoas que me fizeram feliz,
Nem sobre as que me farão feliz,
Menos ainda, pergunte sobre as pessoas que eu fiz feliz,
Não me pergunte nada sobre a minha dor,
Porque eu não saberei responder a essas perguntas,
Então, não alimente expectativas a respeito das coisas que farei,
Menos ainda, pense sobre quem sou eu,
Se nem mesmo eu sei!
Mas se achar importante saber algo sobre mim,
Saiba apenas que inda uso a máscara,
E não sei se conseguirei depô-la novamente,
Pois a madrugada é fria,
Mas os homens são mais frios ainda.

Escrito por John às 11h54
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   “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.”

Vladimir Maiakovsky, 1907


Brasil, 1º de Novembro de 2005.



Caro Senhor Maiakovsky,

Escrevo em razão dos seus versos. Peço, desde agora, desculpas pela demora da minha resposta (já terão se passado quase cem anos desde que escreveste o poema em questão). Talvez minimize minha culpa o fato de eu só existir a menos de um quarto de século, quando o senhor, há muito tempo já não existia. De qualquer forma, antes tarde do que nunca, é o que dizem. E a importância da matéria em questão merece um posicionamento, mesmo que tardio.
Pois bem, é com imenso pesar que escrevo ao senhor para comunicar que temos fortes razões para crer que, no Brasil, não exista nem jamais tenha existido o tal “homem feliz”. Ou, se o referido sujeito alguma vez pisou por estas terras, soube esconder com tamanho sucesso sua condição singular, que nem eu, nem nenhum dos meus conterrâneos, jamais a suspeitamos. Seguramente, como o senhor pode imaginar, se tal pessoa de fato existisse, dificilmente passaria despercebida. É provável, quase certo, que se alguém se deparasse com tamanha aberração, comunicaria, de imediato, os jornais onde figurariam manchetes de primeira página: “Encontrado, no Brasil, um homem feliz”. Mas, como tal coisa jamais aconteceu, podemos supor que são falsos os boatos de que aqui exista (ou tenha existido) um homem feliz. Durante os anos de ditadura, há quem o afirme, esteve entre as ordens do dia encontrar o já referido sujeito (como o senhor deve supor, qualquer governo, canhoto ou destro, teria boas razões para exibir publicamente um “homem feliz”, prova do sucesso de suas arbitrárias medidas políticas). Contudo, jamais foi encontrado.
Espero, sinceramente, que o senhor obtenha êxito na sua procura. Com esta carta não pretendo desanimá-lo, mas, tão somente, poupar-lhe o trabalho de uma busca infrutífera. O fato é que se a felicidade de fato existe não deu o ar de sua graça por estas terras. É preciso dizer-te que eu não creio que ela exista? O senhor já o terá adivinhado. Contudo, se me permite uma sugestão, recomendaria que o senhor continuasse sua busca pelo homem feliz na Tailândia. Há alguns meses atrás, vi uma fotografia que me pareceu suspeitíssima. Imagine o senhor, um homem sorria! Se eu acreditasse na felicidade, eu diria que ela mora na Tailândia. Mas, meu ceticismo não me permite tal crença...
Cordialmente,

Henrique Fagundes Carvalho


Escrito por Henrique às 09h45
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